quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sou nordestina, de pai e mãe.

        
         
Sou nordestina, de pai e mãe. Não me interessa minha origem portuguesa, espanhola, holandesa, indígena ou africana. Sou brasileira e nordestina e isto me basta. Nasci em Maceió, Alagoas e, pasmem, não sou idiota. Amo e conheço minha terra como quem toma um caldo-de-cana ruim pela manhã sabendo que à noite todo o potencial de meu povo pode surpreender.  
         Cresci em uma família de trabalhadores e pensadores que se preocupam mais com a dignidade, alimentação e educação dos seus do que com a rotação da Terra e a opinião alheia.
         Divertidas, se não fossem trágicas, as reações xenófobas nas redes sócias pregando o extermínio do povo nordestino, são de uma virulência tão inócua que remetem à “Revolta da Vacina” no início do século passado ou à penca racista imputada a Monteiro Lobato. Aos ataques infantis seria covardia qualquer revide. De muitos legítimos defeitos de meu povo, um que ele não tem vocação é para a covardia.
         Não precisamos de julgamentos ou aceitação, muito menos de bandeiras defensoras do “orgulho nordestino”. Cada nordestino se orgulha de seus próprios feitos e não de fazer parte de uma região geográfica. Nunca ouvi falar de “orgulho de ser sudestino” para os nascidos na região sudeste.
         Forjamos nossa cultura à custa de muita labuta e humildade; talvez mais humildade do que o necessário. Ajudamos a construir o Brasil de hoje  difundindo e multiplicando nossa arte pelos vilarejos do país e nas grandes metrópoles. Pagamos um preço alto pelo direito ao nosso sotaque, arte, som, opinião, valores e trejeitos: o discurso de ódio travestido de liberdade de expressão.

         Mesmo o coco dormindo no pé e o caranguejo esperneando na lata, na minha casa só entra confiança. 

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