sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nada ao acaso



         Apressado pela Rua das Laranjeiras devora um joelho de padaria. Pensa ouvir um arfar nas costas. Olha para trás e nada vê. Continua ouvindo e andando e vez em quando olha para trás. Nada. Para no sinal da Rua Pinheiro Machado e sente o contato úmido na canela. Um vira-lata baba seu tênis. Vaza! Grita enojado. O cão para, senta e encara com a língua pendurada. Saco. Vai pra casa, cara, você está me confundindo com outro humano. Olha só: vou atravessar a rua agora. Não vem não, fica aí, é perigoso; você entendeu? O cão atravessa junto. Chegam ao laboratório para pegar resultado de exame. Entra ele, o cão é barrado pelo segurança: xô sarna! Melhor assim. Pega o resultado, rasga o envelope. Uma linha impressa e dois segundos são suficientes para minar seu futuro. Faltam pernas, anoitece, senta gelado na calçada. Pensa nas coisas a fazer, no que jamais faria e, principalmente, no que jamais deveria ter feito. Deita os braços nos joelhos. Chora para o chão. Levanta o rosto para o céu puxando os cabelos. Abre a boca para gritar e para. Você ainda está aqui? O vira-lata arfa e balança o rabo. Vem cá. Implora. O cão deita focinho na perna dele mantendo os olhos fixos no rosto molhado do homem. Valeu, cara, eu estou precisando desse apoio. Você não sabe, mas eu sou um merda. Pra você tudo bem, né? Você é um vira-lata muito legal. Eu gostaria de conhecer gente tão legal quanto você. Sabia que eu sempre quis ter um cachorro? Sei. Sei que você entende. Talvez você possa me ajudar. A partir de agora estou muito só. No começo daremos longos passeios e brincaremos na praia. Você gosta de praia? Eu também. Vou precisar de todo o seu amor, dias muito difíceis virão e vai ser só nós dois e quando a dor aumentar contarei com teu abraço babado, meu fiel amigo, e irei...
         Alguém passa diante deles com sacola de supermercado. O cão levanta e acompanha a sacola arfando sem olhar para trás. 

7 comentários:

Sylvia Regina Marin disse...

É Catarina na veia. Crônica desse nosso cotidiano ensandecido e faminto. Ótima, como sempre.

Aline Rezende disse...

Vida de dono sem cão também é difícil...


Ida Vicenzia disse...

Grande Catarina!

Anônimo disse...

Que mundo cão, hein?
Wilma

Anônimo disse...

O cara do 1401 é um espião para comprovar se estão seguindo direitinho o que aCIÁtica recomenda. Ele não se envolve... ´so espia!

Catarina Cunha disse...

Só espia ao acaso.

Anônimo disse...

Há sempre um Cão em todos os infernos e paraísos. YK