sábado, 17 de dezembro de 2016

CAFÉ


Café

Antes de pensar o dia perguntei-me se haveria outra noite suficiente para alimentar todas as bocas estelares. A mudez solar sepultou todos os meus pensamentos óbvios na cova rasa da imensidão galáctica.
Vácuo no corredor.
Meteórico.
Foda.
Odeio o dia começar assim da mesma forma que terminou.
A cafeteira me inferniza com questionamentos domésticos recheados de rotina maternal. Sofro as lamúrias depressivas das marés, como se não bastasse o que tenho que assistir inerte.
Suporto o beijo do aroma do que odeio amar.
Fé e mar.
Café.
Saudade do que nunca se é
Foda.
Odeio o dia começar assim da mesma forma.
O movimento de rotação me embrulha o estômago e sucumbo ao tédio de goles homeopáticos de translação. Não há latitude suficiente para aplacar a longitude de minha desesperança com tantas certezas absolutas. Obtusas, contra ou pró.
Sempre profundo.
Mundo foda.
Odeio o dia começar assim.
Dou corda na engrenagem alimentando os ventos antes que a violência indomável me jogue os indefesos ao colo. Não sei até quando conseguirei fazer café assistindo essa máquina faminta devorar as próprias entranhas. Precisaria ser mais do que o gelo sobre a febre para cumprir minha missão.
Ficção.
Karma é foda.
Odeio o dia começar.
A cada movimento feroz procuro nos meridianos as causas catastróficas de tão vil existência. Mas não há cálculo infinito possível de resolver equação tão complexa quanto à inexatidão.
Insisto.
Esperança é foda.

Odeio o dia.
Cracas e mais cascas se acumulam sobre meus ombros varrendo minhas forças para a vala do buraco negro. Lá de onde vim, mas nunca entrei. Vejo o fogo consumindo a razão e os dedos das florestas me agarrando.
Deslizam e voam de mim.
Perda é foda.
Odeio.
Ser Terra,
Mas cá tenho café.











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