quarta-feira, 21 de maio de 2008

A cidade sobre uma linha tênue


- Posso sentar aqui?
- Não, senhora.
- Por que não? O lugar está vago!
- Com todo o respeito, a senhora me desculpe, mas a senhora é muito gorda. Vai me imprensar na janela.
- Ora bolas! Eu paguei a passagem igual a você e vou sentar onde eu quiser!
- Então deveria pagar duas...
- Moleque sem educação...
- A senhora perguntou, eu respondi com todo o respeito.
- Eu é que não vou sentar do seu lado. Você está fedendo.
- Eu tomo banho e fico limpo. Já a senhora continua... Gorda!
- Favelado é tudo igual... Nojento!
- Gorda também... Espaçosa!
- Negro fedido!
- Gorda escrota!
- Vou de dar um banho de água sanitária!
- Água sanitária tudo bem. E depois? Vai sentar em cima de mim? Ah! Isso eu não agüento, dona...
- Ah! Isso já foi longe demais! Moleque atrevido! Vou te encher de...
Da frente do coletivo ouve-se o berro tão conhecido:
- Perdeu! Perdeu! Vão abrindo as bolsas e esvaziando os bolsos que hoje eu tô nervoso! Bora! Bora! Não levanta não, se não leva bala!
Os passageiros esqueceram-se do neguinho e da gorda e aceleraram os procedimentos obrigatórios de urgência para atender ordem tão claramente estabelecida. A gorda olhou para o neguinho e perguntou:
- O que está acontecendo?
- Ih, dona... Não percebeu? É um assalto. Os caras tão ganhando o ônibus. Senta aqui do meu lado e vê se fica quieta.
- Oh, meu filho, vou colocar minha pensão no seu bolso pros bandidos não levarem.
- No bolso de traz, rapidinho.
- Deus te abençoe, meu filho.
- PASSA! PASSA! E você, moleque? Tá me encarando por quê? Essa camisa do Botafogo eu não gosto. Isso não é time de macho, vou te encher de sopapo!
- Não, moço! Ele está comigo, ele me ajuda, sou uma mulher doente. Tenha dó!
- Tá bom vovó, deixa de mole, por hoje passa! E você, babaca, se eu te ver com essa camisa de novo, não vai adiantar chamar a vovó. E vão passando os troços.
- (...)
- Tia? Eles já foram, pode abrir os olhos. Pega aqui a sua pensão. Flamenguista filho de uma... Deixa prá lá... A tia mandou bem com o cara, valeu.
- Nada... Eu que agradeço. Levaram seu dinheirinho...
- Foi. A sua bolsa também.
- Besteira. Só tinha papel dentro. Toma aqui uns trocados para compensar.
- Vou aceitar por necessidade.
- Está muito apertado aí?
- Só um pouquinho...
- Menino bom. Sua mãe deve ter orgulho de você.
- A senhora também é legal. Desculpe ter chamado a senhora de gorda escrota.
- Mas eu sou gorda. Escrota não, nervosa. Eu é que peço desculpas por ter chamado você de negro fedido.
- Negro eu sou e com muita honra. Fedido não sou, mas estou. Têm três dias que não chega água lá na comunidade.
- Deixa isso prá lá.
- É. Deixa sim.
- Tenho uns docinhos aqui. Vamos comer?

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