quarta-feira, 21 de maio de 2008

Deu vaca


Minha missão é relatar os fatos. Embora não tenha o lastro jornalístico, carrego a obrigação testemunhal; mais fácil, porém infinitamente mais espinhosa. Não é minha intenção fazer do nobre leitor meu álibe... Até porque, não é do meu feitio. Mas, acredite ou não, eu estava lá, vi tudo com estes olhos com que o fogo há de se deliciar.
Foi numa final de manhã mágica de inverno tupiniquim. O céu tinha aplicado colírio e se oferecia límpido e brilhante. As árvores brisavam gostosas e soltavam confetes de folhas secas. As gentes prosavam sorrindo lentamente e efetuando a fotossíntese nos bancos da praça São Salvador.
Nesse cenário idílico, da esquina do Corpo de Bombeiros, despontou Mimosa rebolando com a delicadeza de um lírio e o passo de uma escada magirus. Como o povo carioca não se assusta atoa, todos notaram, mas ninguém reparou na vaca gorda malhada entrando no fosso do chafariz. Mergulhou espirrando luz molhada para todo lado. A água jorrava da boca de peixes montados por anjos, que vinha derramada do alforje despejado pela grande mãe da fonte. É uma terra de novidades e, todos sabem, até uma vaca tem o direito de passear na praça sem ser incomodada. A praça é do povo.
Mimosa, com movimentos de ninfa, imergiu suas manchas pretas sem levantar borbulha. Ergueu o focinho molhado, fechou os olhos e recebeu o sol morno no rosto. A cada pinguinho, mexia as orelhas exultantes. O prazer foi tamanho, que Mimosa mugiu alto em êxtase profundamente externado. Em dez minutos o chafariz da praça foi cercado por dispostos bombeiros uniformizados e uma dezena de moradores eufóricos. Uma figura raquítica de um metro e meio ameaçou: Ninguém toca na ruminante! Deixa comigo que eu sou veterinário! Algumas testemunhas juram que viram uma grande capa branca esvoaçante nas costas do doutor, provavelmente confeccionada para um viking visto que arrastava pelo chão.
O profissional serelepe tratou logo de examinar as orelhas, as tetas e o linguão da bichana que, interativa, acompanhava impávida os movimentos do doutor com os olhos; sem, entretanto, mover seu corpo relaxado de dentro de sua nova banheira. Concluído o exame, constatado que Mimosa não estava ferida e nem de longe doente, os bombeiros passaram uma corda em volta de seu pescoço e se prepararam para executar um comprido cabo de guerra. Revolta geral, os praçantes reagiram em coro: “Solta! Solta! Solta!”. Na pressão, largaram simultaneamente a corda com a chegada da primeira equipe de TV.
A tarde já se enroscava dentro dos estômagos. Foi quando uma das velhinhas praticantes do matinal Tai Chi Chuam, ainda unifornizada, pois não arredara pé do lado do chafariz até então, resolveu providenciar o almoço de Mimosa. Foi até o mercado do outro lado da rua e conseguiu, a título de doação à nova mascote do bairro, três lindos buquês de hortaliças. Mimosa aceitou de bom grado e teve sua leve refeição acompanhada, ao vivo, por milhões de cariocas.
A praça estava uma zona. Fora os curiosos e os bombeiros, tinha pipoqueiro, ambulância, van de cachorro-quente, barzinho improvisado com latinhas geladas, churrasquinho e queijo na brasa e dezenas de especialistas coçando o queixo e analisando a nova habitante do chafariz. Não demorou a se formar uma roda de samba e, no boca-a-boca, se espalhou a notícia da festa da vaca. Imperdível. Quando a noite chegou na praça lotada, encontrou Mimosa cochilando, indiferente ao fusuê, com a cabeça recostada na borda da banheira.
Talvez por sua herança histórica de vida política intensa, ou quem sabe por porra-louquice mesmo, o povo carioca tem a vocação ímpar para causas tão imbatíveis quanto indefensáveis. Paralelo ao samba, mesas diretoras foram instaladas, emolduradas por faixas com palavras de ordem: “A Vaca é nossa!”, “Banho livre para todos!”, “Vaca livre jamais será vencida!”. A lista de apoio à causa já ostentava mais de trezentas assinaturas e a fila continuava crescendo. Autoridades davam entrevistas cautelosas, afinal, não tinha como retirar a celebridade do chafariz sem perder uma penca considerável de eleitores.
Quando o evento já tomava proporções internacionais, Mimosa acordou, alongou o pescoço, balançou preguiçosamente o rabo e levantou. O vento estancou, cuícas, cavaquinhos e bandolins calaram, palavras foram engolidas e o silêncio prendeu a respiração. Lentamente, Mimosa saiu com uma pata da banheira. Reação da galera: “Fica! Fica! Fica!”. Pela primeira vez naquele inebriante dia, a vaca levantou a cabeça e observou a multidão. Posso jurar que encontrei em seu rosto o susto de quem tem a porta do banheiro arrombada durante um momento íntimo.
O que ocorreu em seguida foi um assombro jamais relatado nos anais da prosopopéia carioca. Mimosa desembestou pela praça, espalhando e misturando todo tipo de gente com papel, pipoca e cerveja. Corredores móveis se abriam formando uma grande serpente dançante para Mimosa passar. Os holofotes cegaram a vaca e foi preciso distribuir coice para todo lado. Os valentes bombeiros jogaram uma rede e logo Mimosa estava completamente pescada... “Solta! Solta! Solta!”. Mas agora não deu certo. Era agora uma meliante alucinada, tinha de ser contida. Ouviu-se um comentário desdenhoso: “As pessoas deveriam ser mais sensíveis, onde já se viu? Mexer com uma fêmea durante o toalete... até eu ficaria furiosa!”.
Devidamente sedada e com a língua pendurada nos lábios, Mimosa foi içada para dentro do camburão de vacas. Não se sabe ao certo o paradeiro da destemida, mas comentários maldosos foram tecidos quando, na semana seguinte, um grande churrasco dos bombeiros fez a festa da corporação. No entanto, testemunhos controvérsos afirmam vê-la, nas manhãs frescas de julho, banhando-se no chafariz; mas para ver tem de saber olhar fixo para a água em movimento por, pelo menos, meia hora.
Lenda urbana ou fato. A verdade é que em todo sétimo dia de julho, a praça se enche de samba com a saída do Bloco da Vaca Banhada, desfilando diversas matizes da ruminante e arrecadando milhares de latas de leite em pó, doadas para um abrigo infantil.

5 comentários:

Marcello disse...

Já está nos meus favoritos!!!
Adoro suas crônicas... muito divertidas... e como escreve bem, hein!!!


Os desenhos então... Jaguar vai se morder todo de inveja se vir isso!!!

KKKKKKKKKKKK

Um abraço e fique com Deus.


M-Excel (do fórum do PCI)

Sylvia Regina Marin disse...

Catarina,
Você é fantástica. Esta crônica está simplesmente SENSACIONAL!
Impossível não ser sua fã de carteirinha.
Adorei a cara nova do blog.
Beijos.
Sylvia

Pudim disse...

Eu já tive um blog parecido com o seu, onde postava desenhos feitos no paint junto com meus escritos.

Desisti, mas espero que você não desista.

O seu traço, por sinal, é bem melhor que o meu. Você usa alguma mesa digitalizadora ou apenas gasta muito tempo nos desenhos?

Abraço.

Catarina Cunha disse...

Pudim,
Não uso mesa digitalizadora...Nem sei como funciona! Desenho direto com o mause. Mas não levo mais de 10 min, por isso são desenhos simples. Os textos dão muuuito mais trabalho e ambos muuuito prazer!
Obrigada a todos pelos comentários.

Anônimo disse...

Só não pode o Senador Renan Calheiros ficar sabendo da Mimosa, senão ela vira Pensão.

Sammy | Email | 12-07-2007 15:41:04



Tem vaca sim, e o nº é 25, as dezenas são 97 98 99 e 00.

Catarina | Email | 12-07-2007 14:52:11



Genial. Eu acredito em Vaca. Jogo até no bicho. Jogo? Tem Vaca no Bicho? Não importa, Deu Vaca.

Sammy | Email | 12-07-2007 14:02:10