domingo, 25 de maio de 2008

Milhos e lírios




Como era enfermeira, foi fácil escolher a roupa para o Ano Novo. Selecionou a calcinha amarela porque, neste Ano Novo, todos os sonhos seriam palpáveis. Vestiu as pulseiras, anéis, colares e o par de brincos brilhantes. Maquiagem leve, cabelos soltos e saiu, consciente de sua beleza madura, andando em direção à Copacabana. Na rua, comprou um ramo de lírios para a oferenda, um milho cozido a título de última ceia do ano e uma cidra para estourar na virada.
Chegou no grande lençol branco, decorado com milhões de almas, quinze para meia-noite. Tinha tempo. Estendeu a canga de fitas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia, sentou olhando o mar e pensou: Os filhos, já criados, não mais abriam direito a voto em suas vidas. Os amores iam e vinham como as ondas, só molhando. Mas tinha a sua profissão, amor indissolúvel e confiável; plantões arrebatadores e, no final, o cansaço apaziguador.
Levantou a saia bordada com pequenas contas até os joelhos, molhou os pés e pulou três ondinhas. Lançou os lírios com tanta delicadeza que eles voltaram e abraçaram seus tornozelos. Para seu alívio, o repuxo da onda aceitou o presente engolindo tudo num engasgo espumante. Rezou para Nossa Senhora e pediu proteção à Iemanjá, Rainha do Mar. Pediu sorte, saúde e juízo para os filhos e, se sobrasse um pouquinho, para ela também.
Os fogos estouravam e a água salgou-se de luz. Os gringos e os nativos se abraçavam, se beijavam e se melavam todos de champanhe e cidra com a mesma volúpia. Ela ficou ali, rindo sozinha, mas sozinha. Tinha até esquecido de abrir a cidra...
- A rapariga permite que eu abra a garrafa?
Não é ofensa, é português mesmo, legítimo, prestativo, simpático, turista...
- Claro! Por favor moço...
Ele estourou a cidra, deu um gole que escorreu pelo peito. A cidra sorria e os fogos brilhavam nos dentes brancos e enormes dele. Bebi também no gargalo e ganhei um abraço carinhoso, desengonçado, quase infantil.
Os fogos acabaram mas nós ficamos sentados na areia, lado a lado, conversando até o sol se espreguiçar, indolente, no colchão de espumas.
Ano que vem, trarei mais lírios.

Um comentário:

Anônimo disse...

a primeira pessoa no final ficou muito bom, mudou o ângulo da câmera.

analu Cunha | Email | 11-01-2007 17:14:11



Não sei porque, mas me sinto um pouco enfermeiro. Mas minha oferenda foi Pistache fechado.

sammy | Email | 08-01-2007 12:37:35