quarta-feira, 21 de maio de 2008

Oásis de Natal


Chegou no Saara nove horas da manhã para comprar as lembrancinhas de Natal e os enfeites da árvore. Levava a bolsa de napa marrom grudada no peito. Sabe como é né? Época de grandes esbarrões...Tinha vinte reais, uma lista imensa e muita, mas muita mesmo, fé em sua estratégia financeira. A lista, feita com capricho, foi elaborada observando os desejos mais íntimos, revelados sutilmente pelos entes queridos:
- Este abridor de garrafas tá uma merda!
- Mãe, o Sodex engoliu meu carrinho!
- Tia, vou ser campeão de futebol na seleção brasileira!
- Filha, você viu aquela promoção imperdível de escorredor de arroz?
- Numa abaixada, perdi meu brinco na naite...
E por aí vai, tudo anotadinho na agenda.
Na esperança, começou pelas lojas de um e noventa e nove. Sorte: tudo na promoção de um e noventa e oito.. Só produto de primeira, meideintaiuam.
Difícil foi escolher os brincos, esperimentou mais de vinte, até as orelhas ficarem doídas.
Confere a lista, conta o dinheiro...faltam quatro. Vai dar, mas vai ter de rebolar. Quem nunca desejou um descascador de batatas mágico? Pronto, faltam só três. Miltinho sempre acorda atrasado para a aula...Resolvido, despertador azul, que é a cor predileta dele. Ai, ai, ai...só tem cinco reais e ainda faltam dois...E a passagem de volta? Assim, cheia de embrulho? Só tem 3 reais. Cartões de Natal! Não, sacanagem, pega mal prá caramba dar cartão de Natal em pessoa.
Bateu perna da Central à Carioca, da Uruguaiana à praça da República, fez o quadrado mágico várias vezes; só na Alfândega deu quatro estiradas. Já não pensava na lista, só nos três reais.
Deu sede, afinal, estava no Saara. Entrou numa pastelaria e pediu, com uma vergonha danada, um copo de água da pia. O china, embora tentasse, não entendeu nada; mas o naíba do balcão, entendeu rapidinho e pegou uma pet de água geladinha e encheu um copo. Esses nordestinos podem não ter bom humor mas o coração é gigante!
Voltou para a luta. A tarde ia escaldando o ar sem o menor remorso e nada de encontrar as encomendas eleitas. Foi rezando e olhando as bancadas coloridas e, de repente, foi dando uma vertigem, começou a rodar aquele barulho todo, as coisas foram se misturando até virar uma só escuridão. O último pensamento foi: Os pacotes!!!! Antes de desmaiar, se agarrou neles e caiu numa cama de luzes piscantes e cantantes.
Acordou com tapinha na cara e copo de água com açúcar. Procurou, com o coração espremido, os presentes preciosos. E ainda faltam dois...Estava em uma loja de coisas de Carnaval convertida em coisas de Natal: sininho, purpurina, guirlanda, cocar, fantasia de pirata, barba de Papai Noel, saia de bailarina, lantejola, pinheirinho verde decorado, no esmero, com confete e serpentina. Aparou a mão num tonel cheio de máscaras com o firme propósito de levantar. Só então viu o simpático árabe bigodudo segurando seus pertences. Milagre de Natal, nada estava perdido. Pegou os pacotes, agradeceu, pediu desculpas e saiu com a barriga roncando e o rabo entre as pernas.
A água com açúcar bateu um bolão e se sentia a própria Fenix. Tocou mais duas dúzias de pernas até esbarrar num ambulante cheio de brinquedos amarrados nas costas e disparou:
- Tenho três reais, quero dois brinquedos agora!!!!
- A madame é quem manda, pode escolher.
- Ok, ok, senti firmeza em você, garoto. Vou levar a Xuxa de plástico e a AR15 vermelha...Não! Não! Mudei de idéia, levo a Xuxa e o Bob Esponja inflável.
- Só não dá pra embrulhar pra presente, Dona.
- Precisa não, vou fazer em casa uns papéis decorados com revistas...Ops....e fazer bolinhas prá árvore também, que eu já tinha esquecido.
No ônibus de volta, não se continha de feliz ansiedade. Os dentes assistiam, todos na janela, a Presidente Vargas de afastar numa névoa quente. Só de imaginar a festa do povo de casa abrindo os presentes na noite de Natal, dava um fastio danado de bom.

2 comentários:

Anônimo disse...

Catarina,

SIMPLESMENTE DEMAIS! Que talento para capturar a alma deste nosso povao querido...

Wilma Fukuyama (Da Oficina do Castelinho/Reunioes da Myriam)

Anônimo disse...

Barbaridade tchê: Natal é no Rio grande lá do Norte; mais o mió é Rio, quando é janêro, Shôr!

YvaninhoKunha | Email | Homepage | 04-01-2007 20:04:47