sábado, 9 de novembro de 2013

Impressões de amor e dor em Maceió.


A pichação no muro em Cruz das Almas anuncia: “Não seja tolo de acreditar em alguém que não pode nem transformar sua própria vida” enquanto potoqueiros agem impunemente.
Sombra de barraca de palha, vento na cara, mar morno brilhando todas as cores dos meus humores em verde, azul, branco, amarelo e... preto. Preto? Arrastando sargaço com os pés estanco. Pecado, penso pulando a língua negra tingindo o mar da Ponta Verde. Pinceladas de cinza matinal.
Macaxeira, tapioca, manteiga de garrafa, maxixe, quiabo, boneca de vestido de chita, amendoim cozinhado, queijo coalho, sururu de capote, agulha branca, família farta e amorosa, amigos íntimos para a eternidade. Ensopado de massunim, taioba no shoyo com velhos amigos, picolé de amendoim Caicó, paçoca, bolo de milho, canjica, mingau de aveia e inhame feito pelo próprio pai, céu estrelado, Vênus ou a estrela Dalva balançando no coqueiro? Porteira escancarada, mar que come terra, fumaça, cães fiéis e café coado na confidência das amigas. Cerveja e lua cheia botando o papo em dia. Camarão no bafo. Pegar jacaré e jogar frescobol em Guaxuma, nascer do sol em Cruz das Almas. Casquinha de siri, chopes mais chopes, amor ou DNA?
Feijão de corda, carne-de-sol, farofa de farinha d’água, papo cabeça, existencial, sexual, grandes amores, tragédias e superações. Perdas e reparações. Família, literatura, música, cinema, trabalho e muito ócio. Artesanato, culinária, pedagogia, administração, política, psicologia, arquitetura, medicina, engenharia e direito, muito direito. O irmão encantado. A mãe que segue, a neta que surge.
Pitomba, carambola, mangaba, cajá, umbu, cará assado na fava, primos presos no estacionamento. Primas loiras, morenas, tímidas, despachadas, intelectuais, primos sérios, brincalhões, primos e primas aos borbotões. Tios e tias visitados outros desencontrados. Passado amaciado pelo presente apaziguador. Beijos e abraços no corredor.
E vem aquela chuva de mãe. Só para lavar as ruas, aguar as plantas e refrescar a dormida.
Carona aeroporto, carona para a praia, carona para todos os lados, todo mundo aqui tem carro e três celulares? Todo mundo frequenta os melhores restaurantes e vestem as melhores roupas?  Novas estradas, novos shopping centers, novos viadutos. A minha cidade se transformou? É o éden? Onde estão os pescadores, os catadores de mariscos, as rendeiras, costureiras, os operários que constroem essa nova cidade, que limpam essas grandes casas? É preciso andar de ônibus, ver os bairros periféricos fora da orla turística. Ver as pessoas que lutam sem armas para sobreviver. Sentir a lagoa Mundaú morta e soterrada aos pés de seu povo miserável mendigando sem poder retirar seu sustento do berço poluído. Onde usar o puçá? Dignidade enlameada em valas e mais valas fétidas jardinando as casas molambentas. Crianças barrigudas brincam entre os destroços de uma guerra perdida. Grotas escondidas abrigam favelas invertidas onde o mais pobre está no fundo da grota úmida e escura. Jovens com gastos uniformes escolares catam comida no lixo enquanto prostitutas mirins rasgam a infância recostada na grade da linha férrea. Bocas desdentadas de idosas abandonadas anunciam a lata enferrujada de massunim despinicado por mãos riscadas de cicatrizes e tortas de artrite. Bêbados de cachaça-de-cabeça vagam conversando com suas chagas e desgraças.
É dia de finados. Coroas de flores plásticas traduzem aos berros tanta beleza e dor.


3 comentários:

Sylvia Regina Marin disse...

Catarina, suas crônicas são sempre sensacionais. A gente consegue vivenciar suas impressões de amor e dor na cidade natal. Fiquei muito feliz com o sucesso da venda de seus livros. Beijos.

Aline Rezende disse...

Mesmo não sendo de Maceió, me identifiquei...
não deve haver impressões mais brasileiras... e mais de carne e osso que as suas... não deve não!

COZINHANDO PARA AMIGOS disse...

Síntese de nossa cidade! Síntese de nossos orgulhos! Síntese de nossa dor!Maceió, nosso Sururu de Capote!