quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Esporro



Não faça ouvido moco, moleque, com esse buraco da maldade. Não te criei ouvindo canário para vomitar urubu depois de tirar os cueiros. Vou cuspir no chão e, antes de secar, quero tua cara de cagão aqui. Não adianta dar chilique nem botar tromba que eu não tenho medo de murrinha. Se apanhar na rua de novo dos maloqueiros carunchos e borrar o pino da caçoleta saiba que o cinto vai cantar na carcunda até fazer caminho de lacraia. O quê? Fala direito estrupício! Come como são e fala como doente. Parece que tem miolo mole. Como é que é? Vai retrucar empinando as ventas? Tua mãe não te deu educação? Tinhoso como o cunhado e enxerido como a sogra. Em vez de tratar a roça pra empedrar os braços fica aí de flozô com os livros até o cu da noite gastando candeeiro. Fica assim, xôxo, com vudum de preguiça. Depois me vem com renda de trancoso e não quer levar esporro. Nada de fliquiti e toma temência. Tenho dito. Pede a bença e xispa!
- A bença, meu pai.
- Deus te abençoe, meu filho. Passo de jumento e olho de carcará na estrada, um pé lá e outro cá, viu?

10 comentários:

Anônimo disse...

Confesso, Catá, que para uma linguagem técnica como esta preciso de tradução literária, que confio você me dará na próxima reunião...
no que diz respeito ao conceito, me é muito familiar, pois lá nos segredos de Napoli, usam-se os mesmos métodos...
grande Catá, como sempre! my

Catarina Cunha disse...

Essa linguagem é universal.

Sylvia Regina Marin disse...

Me ocorreu o mesmo pensamento: "Como é que a Catarina consegue escrever tantas palavras que a gente nem sonha que existem e, no entanto, se sair tão bem com seu recado?" Eu jamais conseguiria. Como diz a My, grande Catá!

Aline Rezende disse...

Adorei! Delícia de esporro!!!

Catarina Cunha disse...

A maioria das palavras e expressões são do meu saudoso nordeste, onde criatividade e neologismo nasce até em rachadura de quengo.

Lilian disse...

Amei.
É isso mesmo. Um grande esporro e o cuidadoso amor de pai no final.
Vc é demais! Bjs, saudades de vc por aqui...

Anônimo disse...

Cata: esporro é esporro, obedecer também ´e um esporro servil. yk

Catarina Cunha disse...

Lilian,
Saudades também. Talvez eu precise de um esporro.

Catarina Cunha disse...

YK,
Eu que tive a sorte de nunca receber de você um esporro servil, não aprendi a obedecer. Obrigada, pai.

Anônimo disse...

Participar num é esporro... é é respeito e sabedoria. Brigado! Yk