quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Entre o trem e a onda


            O trem para na Central. A maré leva a onda para a plataforma enquanto o refluxo insiste. Água embarca, espuma desembarca. No meio Carlos, estática ante o redemoinho; fecha os olhos. Fura a onda sentindo a lambida do mar pelo corpo. A água está clara até os pés, fria de dar quase ar. Os poros, acupuntura. A braçada flutua de olho no horizonte, oscila para cima e para baixo. Lá adiante a onda sobe volumosa como bolo no forno correndo em sua direção. Carlos sente a puxada nas pernas anunciando recuo perfeito. Perfeito, nunca antes. Com os remos das palmas nada e nada e nada, nada a mais em direção a costa. Sentindo-se no meio, entre a crista e o Éden, perpendicula o corpo em prancha e, com o braço direito roto, quilha.  Enquanto o véu de mar o abraça, Carlos recebe os tons pastéis dos despedidos do dia, já quase nanquim borrado. A nuvem salgada domina norte-sul-leste-oeste. Breca e mergulha quase rente a si mesmo. Emerge com um movimento enxague. Gargalha as estrelas colhidas com os dois braços.

         Estação Madureira. Onda entra, onda sai. Carlos segue o fluxo e, na plataforma, é no mínimo suspeito.

3 comentários:

Anônimo disse...

bela metafora, bela semelhança. como sempre muito bom! parabens
my

Marcia Tavares disse...

PURA POESIA.
BJUS

Anônimo disse...

Só quem sabe pegar onda vai entender este poema. Catarina Cunha, você é única.
Jonatas Albuquerque