Amor de cão

As surras de toalha molhada nem as tapas na cara não o deprimiam, ajudavam a analisar seus erros explícitos ou subliminares: demorou mais de dez minutos para perceber o novo corte de cabelo da esposa, ousara colocar um pouco de sal no almoço perfeito que ela fizera com tanto sacrifício, esquecera a tampa do sanitário levantada numa noite insone tentando entender os motivos do último esporro, pecara trazendo da padaria pão careca doce em vez de salgado ao voltar estressado do trabalho. Embora soubesse merecedor dos corretivos, não sabia mais o que fazer para alegrar aquela mulher. A própria burrice o atormentava e seu esforço era inumano para superá-la. A patroa, compreensiva, acabava aceitando a própria sina. Ela olhava-o com desespero nos dedos entre os cabelos e, louca de amor, deixava escapar que não sabia mais o que fazer com ele. Com a agenda lotada de compromissos de mimos da amada, ele desdenhava dos próprios: emprego, saúde e espelho. No início da tarde foi suma...